O mundo de olho na crise hídrica brasileira

O mundo de olho na crise hídrica brasileira

Roberto Muniz*

Para quem conhece as desventuras de conviver com a estiagem frequente e o sofrimento de uma vida sob restrições do uso da água do povo sertanejo, participar do 7º Fórum Mundial da Água, na Coréia do Sul, foi um valioso aprendizado e aprofundamento de um diagnóstico muito alarmante: a crise hídrica é uma realidade inexorável para a vida no Planeta.

Em Daegu e Gyeongju, acompanhamos ao lado da delegação brasileira uma explosão de relatos em que líderes governamentais de dezenas de países, técnicos e pesquisadores confirmaram o cenário de escassez. Os esforços nas últimas décadas de prover água e energia para a população mundial têm sido insuficientes. No futuro, a vida sob o estresse hídrico será uma preocupação permanente. E o Brasil, para espanto de muitos, veio se juntar ao mapa da escassez.

A grandiosidade do Fórum e a maciça participação de diversas nações – cerca de 2 mil pessoas estiveram na abertura do evento – nos permite concluir que o tema “água” já ocupa a pauta mundial de prioridades, e que a partir de agora invadirá, em definitivo, o cotidiano brasileiro como temática central para a discussão sobre o futuro do país. A água nos seus mais diversos usos, na agricultura, na indústria e, principalmente, para o consumo humano, adquire uma importância e uma complexidade nunca antes experimentada.

Na abertura do evento, na tarde do domingo de 12 de abril, entre outras falas, ecoou positivamente o relato do Presidente do Fórum Mundial, o brasileiro Benedito Braga, que apresentou as conquistas nas últimas décadas, com a inclusão de milhões de pessoas em programas de acesso à água e energia em todo o mundo, gotas importantes de otimismo em meio à imensidão de problemas. Ressalta-se também a intervenção do presidente da Hungria, János Áder, que, citando o Brasil por meio da crise hídrica de São Paulo, aproximou-nos de outros percalços que ocorreram no Chile, na Califórnia e em diversos outros lugares do mundo nas últimas semanas, estabelecendo a premissa de que estamos unidos mundialmente sob a iminência de secas ou enchentes.

A presidente da Coréia do Sul, Park Geun-Hye, anfitriã do Fórum, focou sua apresentação em três pontos: o uso da ciência e tecnologia para o enfrentamento dos desafios; uma maior cooperação global entre instituições governamentais e não governamentais; e a busca de meios diplomáticos para intervir em futuros conflitos internacionais de água

Para finalizar, ainda na abertura, coube ao presidente da OECD, Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico, Ángel Gurría, introduzir o debate sobre o financiamento para a construção da infraestrutura e sua operação,  de acordo com o conceito que chamou de “3Ts” (Tariffs, Taxes and Transfers).

São discursos que ecoam na vivência de um brasileiro como eu, que, ainda jovem engenheiro, morou em um acampamento de obra, em uma casa construída de madeirite no raso da Catarina, semi-árido baiano, num reassentamento de famílias decorrente da implantação da barragem de Itaparica. Percorri milhares de quilômetros do agreste baiano vivenciando a busca da população por soluções para uma melhor qualidade de vida. Conheci assim o flagelo da seca e as imposições socioeconômicas que a falta de água impõe na vida do nordestino. Lutávamos contra a seca, mas o tempo sabiamente nos ensinou, sociedade e governos, que devemos conviver com ela e não simplesmente, combatê-la.

Durante muito tempo no Brasil, estes debates e aprendizados se restringiam a uma parcela pequena da área geográfica do nosso imenso País, o Nordeste, e sentíamos que estávamos isolados dentro das nossas fronteiras. Os gritos de sede eram por vezes interpretados como lamúrias ou incompetência.

Nos últimos meses, porém, observamos perplexos, junto a grande parcela de brasileiros, a chegada dos famigerados carros-pipas desfilando pelos bairros de São Paulo e atendendo a diversas classes sociais na capital paulista, a cidade de maior PIB do Brasil. Pipas aguardadas como um instrumento de política pública para minorar os impactos da mais nova crise brasileira, a crise hídrica. Presenciar as imagens de Cantareira e de outros mananciais atingidos pela estiagem nos estados de maior pujança econômica como São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais é, sem sombra de dúvida, um alerta que não poderemos jamais desprezar.

A boa notícia, se pudermos assim dizer, é que não estamos sós. O raso da Catarina, o semiárido nordestino e mineiro, os campos gaúchos, diversas localidades brasileiras e agora as regiões metropolitanas se irmanam na temática da água ao lado de centenas de países. Encontramos na Coréia, nos pavilhões da feira e corredores, fotografias e problemas similares aos nossos. As fotos e relatos de crianças brincando no esgoto, carregando latas com água, muitas vezes impróprias para o consumo, cenas estas compartilhada com seus irmãos, mães e vizinhos, fotos da terra rachada e sedenta, se multiplicam à espera de uma providência divina. Mas nem tudo é só dificuldade: também desfilam uma enormidade de soluções que estão sendo gestadas e geridas no Brasil e em diversos lugares do mundo.

É hora de difundir e compartilhar nossas ideias, sonhos e ideais. É tempo de intercambiarmos nossos problemas e soluções, expor nossas vivências, de assumir o planeta Terra como nossa pátria e a humanidade como nossos compatriotas.

Difícil mesmo foi explicar, na Coréia, que apesar de termos 12% das reservas de água doce do planeta, estamos mergulhados (claro que não seria bem esta palavra, estamos sim, emparedados) pela crise hídrica. Ausência de vontade política, falta de planejamento e gestão, o não-reconhecimento da sociedade da importância de tarifas justas para elevar o patamar de investimentos e manutenção adequada dos sistemas, excesso de burocracia, a ainda tímida existência de número diminuto de parcerias público-privada, falta de política pública priorizando o saneamento ou simplesmente a má vontade de São Pedro podem ser diversas óticas sobre o mesmo problema. É tempo de despertar, de mobilizarmos os melhores esforços para buscarmos segurança hídrica para gerações futuras.

De volta ao Brasil, fica o apelo: vamos participar e cooperar na conquista do tema central do 7º Fórum Mundial da Água: construir políticas que nos possibilitem alcançar a ”Água para o nosso futuro”.

Roberto Muniz, membro do Conselho Mundial da Água, seção Brasil, é presidente executivo da Abcon (Associação Brasileira das Concessionárias Privadas de Serviços Públicos de Água e Esgoto).

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