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  • Em cinco anos, o SUS gastou 1 bilhão de reais com doenças por falta de saneamento

    21/10/2019

    A pergunta que Áurea Sarmento, enfermeira em uma unidade básica de saúde de Ananindeua (PA), mais ouve de seus pacientes é: “Será que é verme?”. Com menos de 1% de atendimento por rede de esgoto e só 30% da população com acesso à água tratada, a cidade na região metropolitana de Belém sofre com doenças facilmente evitáveis, o que faz com que a suspeita dos pacientes acabe confirmada com frequência em exames. A situação não raramente se repete em outros lugares do Brasil. As informações são do jornal Folha de S.Paulo.

    Invisíveis em grande parte das estatísticas, doenças ligadas ao saneamento inadequado ainda são um dos principais pontos de sobrecarga do SUS. Juntas, levam o sistema a gastar ao menos R$ 217 milhões por ano em internações e procedimentos ambulatoriais.

    Só nos últimos cinco anos, foram mais de R$ 1 bilhão despendidos por esse motivo.

    Os dados são de levantamento feito pelo Ministério da Saúde a pedido da Folha, o qual engloba registros de ao menos 27 doenças em que problemas no saneamento aparecem como fator importante para sua transmissão ou manutenção no país.

    Entram na lista diarreias e doenças causadas pela ingestão de água e alimentos contaminados, como amebíase, esquistossomose e hepatite A, ou ligadas às condições do local, como a dengue.

    “São doenças evitáveis, negligenciadas e relacionadas às condições de vida que envolvem o saneamento” diz André Monteiro Costa, da Fiocruz de Pernambuco, que integrou grupo que elaborou nova classificação dessas doenças para a Funasa em 2010.

    “As diarreias estão muito relacionadas à higiene e ao acesso à água, enquanto doenças transmitidas por insetos às condições de moradia, abastecimento de água e pobreza.”

    Para ele, o valor é subestimado. Representantes do Ministério da Saúde também admitem que o gasto real tende a ser muito maior, já que nem todas essas doenças são de notificação obrigatória, e volume expressivo dos atendimentos é concentrado em unidades básicas de saúde, sem que haja registros dos dados.

    Os números já indicam parte do impacto: só em 2018, foram ao menos 487 mil internações por esse motivo, ou mais de 1.300 por dia, e 533 mil procedimentos ambulatoriais.

    Para Leandro Giatti, da Faculdade de Saúde Pública da USP, a baixa notificação de algumas doenças, em especial diarreia, escamoteia a situação de parte expressiva da população que tem o problema.

    A OMS (Organização Mundial de Saúde) aponta que 94% dos casos de diarreia no mundo ocorrem devido à falta de acesso à água de qualidade e ao saneamento precário. Hoje, a diarreia é a segunda causa de morte em crianças menores de cinco anos no mundo.

    A mesma organização estima que, a cada US$ 1 investido em saneamento, US$ 4,3 são economizados em saúde. Dados de estudos recentes reforçam essa associação.

    Saneamento x Doenças

    Pesquisa da Associação Brasileira de Engenharia Sanitária em 1.868 municípios aponta que quanto maior o acesso da cidade ao saneamento, menor a incidência de internações por diarreia, infecções intestinais e outras doenças.

    “É muito claro: onde há bons indicadores de saneamento, há menos doenças. Um exemplo é Franca, em São Paulo. Lá, a incidência de internações é de dez casos. Já em Ananindeua, é de 18 vezes mais”, diz o presidente da associação, Roberval Tavares de Souza.

    A situação afeta a rotina de postos de saúde. Perto da unidade onde Áurea trabalha, boa parte da população ainda retira água de poços precários. Na tentativa de minimizar os danos, a equipe orienta sobre o consumo de água segura e o uso de hipoclorito de sódio para a desinfecção da água.

    Mas o problema vai além. “Nas visitas domiciliares, é doloroso entrar e ver a ausência de condições. Muitos também não têm acesso à boa alimentação”, diz Sarmento, que vê reflexos nos exames.

    “Ainda aparecem muitos casos de diarreia e verminoses.” Entre elas, uma das mais frequentes é a giardíase, infecção no intestino delgado que ocorre quando a pessoa ingere cistos de um protozoário em alimentos contaminados por fezes e água sem tratamento.

    Outro desafio é ampliar o acesso à informação. “Tem pessoas que bebem água da bica e dizem que é mineral. Mas quando peço exame de fezes, têm uma quantidade de verminoses absurda”, conta a enfermeira Laurilene Pinto, que trabalha em uma unidade de saúde na periferia de Belém.

    Nem sempre a relação com a falta de saneamento é percebida pela população.

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