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Opinião: Patrimônio ralo abaixo – (por Giuliano Dragone)

21/10/2013

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A água é o mais importante dos patrimônios naturais que o homem possui e deve preservar, mas nós, no Brasil, que temos 12% dos recursos hídricos mundiais à disposição, não estamos fazendo nossa parte.

Empresas de saneamento que atuam no país perdem cerca de 40% de seu faturamento com a fuga de capital provocada por diversos motivos, não apenas vazamentos, mas também ligações clandestinas, falta de medição ou medição incorreta do consumo. Pelo menos 40% dos municípios estão acima dessa média nacional, muito superior a de países como a Alemanha, que possui índice de perdas em torno de 7%, Japão ou Estados Unidos (ambos com 10%).

Na Amazônia, que concentra 70% de nossas águas, a perda média supera os 60% na maior parte dos municípios. Há muita água, mas ela não chega até as torneiras da população. O Banco Mundial recomenda que esse índice fique pelo menos abaixo do que 25%.

Mesmo em São Paulo, onde investimentos na ampliação do sistema têm sido constantes, inclusive em parcerias do Estado com a iniciativa privada, o montante de perdas é significativo: mais da metade das cidades trabalha com índices superiores a 20%.

As perdas físicas – aquelas provenientes de defeitos da rede ou de outras obras de distribuição – são a mais crítica deficiência do setor. Combatê-las, no entanto, torna-se uma oportunidade. Afinal, reduzir a perda de água em 10% apenas em São Paulo proporcionaria um ganho em receita operacional de R$ 275,8 milhões, conforme estudo feito pelo Instituto Trata Brasil. Um dinheiro que seria muito bem vindo para reinvestir na ampliação e modernização do sistema.

Para se atingir esse ganho, é necessário eliminar a maior parte das perdas de água com uma gestão eficiente. Evidentemente, essa é uma preocupação recorrente entre a iniciativa privada que atua nos serviços públicos de água e esgoto. Além de promover a renovação das tubulações, o segmento privado tem investido também em novas tecnologias de controle informatizado de perdas, desde a macro até a micro medição, fundamentais para se averiguar a exata situação de suas redes. Muito desse esforço logo poderá ser reconhecido, à medida que as concessões operadas pela iniciativa privada alcancem um estágio adiantado de desenvolvimento.

É sabido que um programa de redução de perdas leva tempo para atingir os níveis desejados. Exige esforço e dedicação constante, além de investimento em recursos humanos capacitados para a gestão e operação. Entre as empresas associadas ao sistema ABCON/SINDCON, por exemplo, as concessões mais maduras (acima de 10 anos de operação) já demonstram níveis de perdas admiráveis, como é o caso, por exemplo, da concessão do município de Limeira, hoje com apenas 12% de perdas.

Existem obstáculos de toda a ordem para atingirmos um patamar compatível com o verificado em países da Europa e dos Estados Unidos. No que se refere às perdas físicas ou reais, sofremos com a falta de investimento público e a miopia de alguns engenheiros, que preferem desenhar plantas de tratamento a consertar vazamentos.

Há ainda as perdas aparentes ou comerciais, representadas por consumos reais efetuados pelos clientes e não registrados, seja por razões como o uso ilegal, sub-medição ou erros gerados pelo sistema de leitura ou faturamento. Estas perdas, por sua vez, são ainda mais delicadas de serem combatidas. Mesmo quando há fraude comprovada contra a concessionária, o corte de água é medida impopular e contestada. No mundo, operadores perdem anualmente US$ 14 bilhões com águas não-faturadas, que são colocadas para distribuição na rede, mas não são cobradas dos clientes.

Em resumo, é inconcebível perdermos quase metade da água que captamos e tratamos. O cenário exige providências urgentes para combater esse problema que afeta municípios em todo o país. A participação da iniciativa privada como forma de garantir recursos financeiros para os projetos e a gestão moderna da operação é, sem dúvida, uma solução, seja no modelo de concessão plena ou parcial, parceria pública-privada ou subconcessão.

Para todos os operadores, públicos ou privados, que desejem encarar o desafio das perdas, é preciso não apenas tecer as considerações essenciais à concepção do programa de redução, tais como quanto, onde e porque está se perdendo o recurso hídrico, mas também identificar como a estratégia de implantação desse programa poderá ser sustentada ao longo do tempo, consolidando-se como um investimento constante da empresa.

A água, nas palavras da Declaração Universal proposta pela ONU para o tema, não é uma doação gratuita da natureza, ela possui valor econômico. Se não soubermos preservá-la, será em breve escassa e dispendiosa, mesmo em países “abençoados por Deus” e com tantas dádivas da natureza.

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