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  • Edição 13

    ANO V - DEZ/2018 A MAR/2019

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    Com a palavra

    Alerta: nosso planeta corre sérios riscos

    em 19 de Dezembro de 2018

    Não é apenas a preservação da água que se faz necessária. Nunca foi tão importante estar atento à sustentabilidade como agora, assinala o jornalista André Trigueiro

    “Ecochato e biodesagradável.”

    É assim, com ironia, que André Trigueiro encerra suas palestras, brincando com a necessidade de ser radical na defesa da sustentabilidade.

    O jornalista carioca tem 52 anos. Boa parte de sua vida foi dedicada à carreira, na qual se destacou pela cobertura de assuntos ligados ao meio ambiente. Ao longo desse tempo, principalmente à frente do programa “Cidades e Soluções”, da Globonews, durante 11 anos, Trigueiro esteve em contato com os graves problemas enfrentados pelo saneamento no Brasil.

    Foram até aqui mais de 400 programas, em que, inclusive, teve a oportunidade de conhecer algumas das iniciativas das concessionárias privadas do setor, em matérias realizadas nos próprios locais em que as plantas estão instaladas. “Já bebi a água de reúso de uma operação”, lembra ele.

    Trigueiro também é professor há 14 anos da PUC do Rio de Janeiro, onde criou a cadeira de Jornalismo Ambiental. Em novembro, ele foi convidado a ministrar palestra sobre “Sustentabilidade em um Mundo em Transformação” em Salto, interior de São Paulo. Banhada pelo rio Tietê, a cidade, atendida por concessionária privada, está comemorando a universalização dos serviços de coleta e tratamento de esgoto.

    Na oportunidade, André Trigueiro conversou com a revista Canal SINDCON. Confira a seguir a entrevista com o jornalista*.

    Quando o assunto sustentabilidade se tornou tão importante na história da humanidade?

    Ainda no século passado, nós percebemos a encrenca que é a agressão ao meio ambiente. A ação do homem tem reflexos diretos no equilíbrio da vida na Terra. Estamos destruindo o planeta, e os sinais dessa destruição são muito claros. Hoje, vivemos um tempo diferente do tempo de nossos avós. As escolhas de agora são realmente determinantes para as próximas gerações.

    Quais são os principais sintomas dessa transformação?

    O aquecimento global já é uma realidade, mesmo que alguns insistam em negá-lo. Há vários fenômenos climáticos que estão interligados, cuja origem está no aquecimento global. Os incêndios na Califórnia, o derretimento das calotas polares, a elevação das temperaturas médias, nada disso é por acaso. Os religiosos poderão dizer que esses são sinais do final dos tempos. Mas essa agressão ao meio ambiente não tem nada a ver com o apocalipse. Nós é que estamos agindo contra nós mesmos. Essa crise tem a nossa digital, o nosso DNA.

    Qual o papel do saneamento nesse cenário, lembrando que o Brasil sustenta índices muito abaixo do desejado nessa área?

    O saneamento depende de vergonha na cara. Quando falamos que saneamento é básico, queremos dizer isso mesmo: básico, essencial. Portanto, é inadmissível que tenhamos chegado à condição de uma das maiores economias do mundo sem saneamento, pois isso é fundamental em um país desenvolvido. Sem saneamento, nosso desenvolvimento é estéril. O saneamento precisa ser prioridade para o Brasil. Não podemos nos conformar com o fato de 100 milhões de pessoas não terem acesso à coleta e tratamento de esgoto.

    As soluções para o setor dependem de vontade política?

    O segmento político precisa honrar seu compromisso com o povo. E pensar para além de quatro anos de mandato. Saneamento demanda tempo. Todos os nossos problemas nessa área não irão se resolver em quatro anos. Com relação ao Governo Federal, é uma pena que não tivemos os debates eleitorais, que poderiam dar uma ideia das propostas do presidente eleito para o setor. Precisamos então aguardar o que vem pela frente. Porém, o que não pode acontecer é cairmos na armadilha de estigmatizarmos os políticos. Há políticos e pessoas de grande valor que estão no serviço público.

    O que podemos fazer no dia a dia para contribuir com a sustentabilidade?

    É preciso entender que o consumo é um ato político. Todos nós somos seres políticos, que de um jeito ou de outro defendem suas propostas. Por que aceitar embalagens de isopor, que são extremamente nocivas ao meio ambiente? Será que eu preciso realmente de todas aquelas sacolinhas plásticas que a caixa do supermercado me oferece para embalar as compras? São reflexões que podem parecer pequenas, mas que fazem toda a diferença. E há também a questão do posicionamento. Somos uma democracia. É preciso botar a boca no trombone quando enxergamos um dano ambiental. Os recursos ambientais, hídricos, são de todos.

    A solução então passa por um posicionamento pessoal?

    Sim. A crise ambiental é ética.  O brasileiro adora churrasco, por exemplo, mas pouco nos interessamos pela procedência da carne. Veja outro exemplo comum, a desfaçatez com que jogamos o lixo na rua. Isso diz muito sobre nossa visão de qualidade de vida. A produção de lixo tem sequelas que precisam ser compreendidas.

    É preciso ter uma atitude positiva diante do desafio da sustentabilidade?

    Exato. No Brasil, as redes sociais privilegiam o espaço para notícias ruins, e esse discurso negativo sobre nosso potencial não leva a nada. Enquanto isso. há tanta iniciativa positiva para destacar. Fico emocionado muitas vezes em reportagens com gente que faz a diferença com poucos recursos. Precisamos aprender com o diferente, aprender a ouvir, exercitar a curiosidade em favor do bem comum. O problema não é o brasileiro. Nós temos o país mais rico do mundo em recursos naturais e biodiversidade. O povo precisa ter essa consciência. É um ato contínuo de conscientização. E o jornalismo pode ser uma vitrine de boas soluções.

    Você conheceu algumas das soluções das concessionárias privadas para o saneamento. Acha que elas merecem ter mais espaço?

    Não é porque o serviço é 100% público ou 100% privado que vai dar certo. O modelo depende de cada cidade. Se o sistema privado está dando certo, por que não mantê-lo? Concessões bem-formuladas, como essa aqui em Salto, precisam ser incentivadas.

    O que falta na agenda de soluções para o saneamento?

    Falta explorar as tecnologias apropriadas para as populações de baixa renda. Precisa também incluir o reúso como parte da solução, estimular o reúso por meio de incentivos fiscais. E avançar na legislação pró-saneamento. Em Niterói, por exemplo, não é permitido pela lei construir sem a estrutura apropriada para as redes de água e esgoto. É um exemplo a ser seguido.

    Você aponta que houve um avanço na despoluição da Baía da Guanabara, ainda que tímido. Acredita que um dia ela estará finalmente despoluída?

    A recuperação da baía, do rio Tietê, não vai acontecer de um dia para outro, mas é claro que acredito nisso. Sou nascido e criado no Rio de Janeiro, conterrâneo de Tom Jobim, que vivia abraçando árvores no Jardim Botânico. Na dúvida, eu também abraço!

     

    *Agradecemos a colaboração da concessionária CONASA Sanesalto.

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