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  • Edição 09

    ANO III – ABRIL A JUNHO 2017

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    Com a palavra

    Qual o caminho possível para a sustentabilidade no Amazonas?

    em 05 de Junho de 2017

    Questões básicas como acesso à água e tratamento de esgoto para populações rurais e ribeirinhas ainda são desafio para universalização no estado brasileiro que abriga a maior reserva de água doce do mundo.

    Para conhecer um pouco melhor a realidade amazônica, a revista Canal SINDCON conversou com Eduardo Taveira, superintendente técnico-científico da FAS – Fundação Amazonas Sustentabilidade.

    Com mais de 1,5 milhão de km² em território, o estado do Amazonas é habitado por pouco mais de 4 milhões de habitantes, metade dos quais vivendo em Manaus.

    Da capital já se avista a floresta amazônica, que compreende em sua totalidade mais de 60% da área do estado. Poucas estradas, muitos rios e uma baixa densidade populacional completam esse quadro de concentração em poucos municípios. São fatores que dificultam um acesso adequado ao saneamento entre a população.

    Essa realidade é bastante conhecida de Eduardo Taveira, mestre em Ciências do Ambiente e especialista em Desenvolvimento Sustentável. Uma de suas maiores preocupações na Fundação Amazonas Sustentável é a dificuldade encontrada para atingir as comunidades em locais de difícil acesso com os serviços de água e esgoto – e também com outros serviços básicos (agentes de saúde treinados, por exemplo, encontram complicações para chegar a diversos povoados da floresta).

    Vivendo sobre palafitas e, em sua maioria, sem energia elétrica, as tradicionais comunidades ribeirinhas estão espalhadas por um amplo território. Muitos chegaram com o ciclo da borracha no século XIX ou em fuga da seca nordestina, optando pela proximidade com os rios ao se fixarem na região. E os rios permanecem como sua principal fonte de sobrevivência.

    Os povos da floresta e ribeirinhos sofrem com o assoreamento e poluição das águas, sendo alta a incidência de doenças causadas pela ingestão de água de má qualidade na região amazônica. No Acre, por exemplo, a população possui a maior incidência de hepatite A do país, com 69 casos por 100 mil habitantes. E se as dimensões continentais são um desafio em si, quando pensamos em fornecimento e tratamento de água, a geografia complexa e a baixa concentração populacional são dificuldades adicionais, mesmo para uma população localizada dentro da maior bacia de água doce superficial do mundo.

    Mas porque ainda não encontramos uma saída para esse paradoxo? Nesta entrevista, Eduardo nos fornece algumas explicações.

    Porque é tão difícil oferecer um acesso digno à água e esgoto tratado no Amazonas?

    Alguns dos 62 municípios do Amazonas são do tamanho de estados brasileiros inteiros, lembrando que 60% do território é mata e 55% da população vive apenas em uma cidade, enquanto o segundo município não chega a 110 mil habitantes, segundo levantamento do IBGE. Essa concentração populacional é uma realidade comum aos grandes centros urbanos do Brasil e do mundo, em que o acesso aos serviços públicos e privados, ao consumo e à informação está concentrado em uma porção ínfima do território, enquanto grande parte da população vive em uma sociedade apartada.

    Devido às longas distâncias do estado, as políticas públicas alcançam ainda menos efetividade nessas regiões. É necessária uma atuação que considere as especificidades locais e o estabelecimento de infraestrutura adequada.

    O crescimento de Manaus seguiu a dinâmica desordenada da urbanização brasileira. A falta de planejamento incentiva uma cadeia de problemas sociais, econômicos e estruturais, aliada à pouca conscientização da população. O resultado são ligações irregulares e pouco seguras, desperdício de água e energia, um quadro que na zona rural se repete em uma escala sem parâmetros.

    Quais são as características dessas zonas afastadas?

    A maior floresta tropical remanescente no planeta busca hoje tecnologias que, por um lado protejam sua diversidade e, por outro, impulsionem o desenvolvimento de suas comunidades. Há uma defasagem muito grande nas políticas públicas entre o acesso à água potável e saneamento na capital e no interior, um paradoxo para uma população que vive no meio da maior reserva de água doce superficial do mundo, mas não consegue ter acesso a ela com qualidade.

    No interior profundo da Amazônia, o problema é ainda maior. As populações e comunidades muito pequenas vivem ao redor das principais calhas de rio, enfrentando grandes problemas de acesso pela sazonalidade da água. Nas enchentes, a várzea alagada é ideal para a produção rural, ao mesmo tempo em que a água inunda banheiros, fossas e os espaços de criação de animais, por um período de quase seis meses. A grande concentração de água favorece a contaminação e o acesso aos serviços de saúde são escassos. Para implantar infraestrutura, a situação não é simples. Não conseguimos perfurar um poço em região de várzea porque isso queimaria a bomba. Porém, poços perfurados em lugares que não alagam nunca ficariam longe da comunidade.

    Como dar acesso ao saneamento para as populações da floresta?

    Ainda não possuímos uma política pública nem tecnologia em grande escala que dê conta do tratamento de água e esgoto em realidades como a Amazônia profunda. Empresas privadas não têm como fazer esse investimento de forma espontânea e nem total, em função da difícil equação econômico-financeira, mas os governos poderiam fomentar ações para essas áreas que não são comercialmente atrativas. O Estado tem dificuldade em promover inovação e possui pouca competência técnica, o que custa muito caro. Ficamos em um limbo.

    Temos trabalhado muito com modelos sustentáveis adaptados a essa realidade. Em áreas de terra firme, já conseguimos desenvolver estruturas baratas, como banheiros secos que ainda geram adubo para as plantações; bombas que puxam água por sistema solar, consórcio de plantas e os círculos de bananeira para limpeza da água. Nenhuma tecnologia se mostrou muito eficaz em áreas de várzea, mas ações de medicina preventiva na perfuração de poços e a fabricação de sabonetes a partir dos resíduos de óleo de cozinha são iniciativas educativas muito simples e extremamente eficazes.

    O fundamental é engajar as comunidades, que são duplamente penalizadas: vivem em áreas isoladas e são excluídas dos processos decisórios. Os movimentos comunitários e a sociedade civil podem articular soluções e modular a realidade em pequena escala e, nesse sentido, acreditamos que ONG’s como nossa Fundação podem ajudar, por exemplo, no processo de decisão coletiva sobre quais sistemas são mais eficientes, o que é difícil para uma empresa e caro para o governo.

    Quais seriam os próximos passos?

    É necessário engajar a sociedade, não só com a água, mas em um contexto mais amplo de desenvolvimento sustentável. Da parte do Estado, é fundamental valorizar e promover políticas públicas para áreas negligenciadas, enquanto empresas podem trabalhar em um sistema de engajamento de clientes e colaboradores para um fundo de investimento, por exemplo, ou um projeto solidário. E temos conversado também sobre como trazer empresas para perto e as sensibilizar para os problemas que já existem, ou seja, discutir mecanismos estratégicos do ponto de vista das empresas e investir no engajamento das comunidades, que tem um compromisso muito grande com o desenvolvimento sustentável.

    Esse é o caminho da sustentabilidade?

    É preciso conectar tecnologias simples com ações integradas para obter bons resultados, o que fica difícil com a pouca articulação entre os atores que promovem as políticas públicas, a sociedade e empresas. O governo é forte no atendimento em si, não é focado em planejamento, então é importante que tenhamos outros atores para pensar a longo prazo. Ouve-se muita resistência à presença da iniciativa privada, mas quando conseguimos comprovar que a parceria traz inovação, um outro olhar para a sustentabilidade e ainda o acesso à tecnologia, conseguimos gerar um círculo virtuoso em prol da sustentabilidade.

     

     

    Concessionária investe no serviço em Manaus

     

    Desde maio de 2012, a concessionária Manaus Ambiental atua nos serviços de tratamento e distribuição de água, coleta e tratamento de esgoto, em Manaus, capital do Amazonas.

    O sistema de abastecimento de água de Manaus é composto por três Estações de Tratamento de Água (ETAs). No Complexo de Produção da Ponta do Ismael, Zona Oeste, estão localizadas a ETA 1 – Sistema de Flotação e ETA 2 – Sistema de Decantação, responsáveis por abastecer 80% da cidade de Manaus. A ETA Mauazinho fica no bairro de mesmo nome, na Zona Sul da capital. A Manaus Ambiental possui ainda uma média de 41 Centros de Produção de Águas Subterrâneas (CPAs) em operação, além de ser a responsável pela distribuição de água do Programa Águas para Manaus (PROAMA) – Complexo Ponta das Lages, situado na Zona Leste.

    A Manaus Ambiental produz hoje 630 milhões de litros de água/dia, quantidade suficiente para abastecer o dobro da população manauara.

     

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