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  • Edição 11

    ANO IV - ABR A JUL/2018

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    Com a palavra

    Questão de valores

    EM 27 de Abril de 2004

    Mestre em cooperação internacional e professora convidada da Fundação Dom Cabral, a consultora Cecília Lodi atua como palestrante e é autora de vários artigos publicados na imprensa sobre cultura corporativa.

    Cecília Lodi: ética é um valor universal

    Nesta entrevista, ela fala sobre a importância da ética e da preservação de valores para entidades e empresas, com foco na atividade das concessionárias de saneamento.

    O saneamento, assim como outros setores que afetam diretamente a saúde e o bem-estar humano, é uma área muito visada pela opinião pública. De que forma empresas desse setor podem preservar valores que atendam a essa expectativa?

    É preciso conquistar e fazer valer a confiança do usuário. Quando falamos de água e saneamento básico, falamos sobre confiança. Não existe valor maior dentro deste segmento. É certo que, com todos os problemas levantados pela operação Lava Jato, de corrupção a desvio de dinheiro, confiar nas pessoas e nas empresas tornou-se um risco ainda maior. Mas isso não é privilégio do Brasil, a crise da confiança. Ela nasce com a crise da ética, dos valores da sociedade, que é algo presente no mundo, de maneira geral.

    Em sociedade de baixo nível de confiança como é a nossa, tudo é mais caro, mais difícil, mais cruel. A vida das pessoas torna-se mais um buscar pela sobrevivência do que buscar um sonho. Mas, paradoxalmente, observa-se que em sociedades com pouca confiança, ela está presente em núcleos menores, como os ambientes empresariais e familiares. Mesmo que não consigamos tecer um pano maior para a vida em comunidade, permanecemos tentando fazer isto em células menores.

    Confiança, já dizia Francis Fukuyama, pensador americano, é a expectativa que nasce no seio de uma comunidade de comportamento estável, honesto e cooperativo, baseada em normas compartilhadas pelos membros desta comunidade. Como vemos, é necessário um ambiente minimamente regulado e pessoas com intenção de seguir aquilo que foi acordado. Este é o caminho da prosperidade.

    Infelizmente ainda, como sociedade, estamos muito longe de trilhar este caminho. Nossa disposição como cumpridores das regras de convívio vem mais de nosso medo de sermos punidos do que de nossa compreensão de que só assim teremos uma vida melhor. Nossa paixão pelo legado que deixávamos em vida foi sendo substituída, nos últimos cem anos, pelos interesses de ganho material. Perdemos, com isso, a profundidade de uma sociedade bem construída, com compromisso voluntário e apoio mútuo.

    Passa então, a célula empresarial a ser o elemento com mais condições atuais de reconstruir esta confiança, através de seus processos, suas pessoas, seus ideais. As empresas são mais longevas que governos e podem tecer melhor uma nova cultura.

    Numa economia de mercado, elas podem exigir melhores escolas para a obtenção de melhor inteligência. Elas podem também exigir melhores valores, sendo as maiores interessadas em não criar uma atmosfera de fraudes e desvios. Cultura é um hábito ético herdado e, como tal, precisa de tempo e dedicação para ser redirecionado. Mas o ganho é grande.

    Como fazer com que os valores da empresa suportem princípios que hoje são cada vez mais necessários e valorizados, tais como a igualdade de gênero e raça, respeito à diversidade, ética e convivência?

    Falar é fácil. Devemos ter a forte intenção de separar o marketing da verdade. A hora da verdade acontece todos os dias, em cada um de nossos pequenos atos. Mais que o medo de sermos punidos, deve haver nosso desejo de que os princípios éticos universais estejam sendo atendidos. Corrigir comportamentos, educar para um convívio deve ser prioridade. Parece não fazer muito sentido hoje o foco nos quesitos básicos de convivência, mas numa sociedade que migra para a robotização, é o que nos salvará de perder nossa humanidade.

    Um bom caminho é estar próximo aos consumidores de nossos produtos e questionar se estamos dando a eles o nosso melhor. No segmento de saneamento, tanto o ambiente interno da organização quanto o ambiente externo são importantes. Nossos produtos e serviços atendem ao ser humano mais desprotegido. Estamos fazendo a nossa parte? Esta é a pergunta que direcionará nossa conduta ética.

    Integridade, transparência, cooperação, gestão sustentável dos recursos e compromisso com o saneamento básico são os valores da ABCON SINDCON. Poderia comentar se eles estão sintonizados com o perfil de uma entidade que reúne empresas privadas ligadas ao abastecimento de água e acesso aos serviços de esgoto (um direito básico do ser humano)?

    A capacidade de criar uma rede empresarial que atenda às necessidades de uma comunidade depende do grau em que empresas e comunidade compartilham normas e valores, e estão dispostas a subordinar interesses individuais aos interesses coletivos. Talvez, empresas, individualmente, não consigam ter alcance para buscar estes ideais, mas precisam fazê-lo juntas. Confiança, integridade, transparência, tudo isso não se atinge com pessoas agindo por conta própria. Deve haver um acordo tácito para o atendimento da finalidade social, especialmente em segmentos como o de saneamento.

    São os tomadores de decisão que criam as bases de uma sociedade. Eles que escolhem, todos os dias, para onde estamos caminhando. Se estes pensarem apenas no compromisso com seus resultados financeiros, tudo empobrece. A prosperidade virá de um conjunto. O compromisso de um trabalho bem feito, da honestidade e do exemplo. Isto é o que diferencia hoje uma empresa da outra, e o que gera significado em nossas ações.

    Recentemente, a ABCON adotou um Código de Conduta para seus associados. Esse tipo de medida valoriza a consolidação dos valores de uma entidade/empresa?

    Imagine que sentamos à mesa para jogar. Ali, um baralho. Não sabemos ainda se jogaremos pôquer, tranca, buraco, truco. As cartas são as mesmas. O Código de Conduta vem esclarecer qual é o jogo a ser jogado. O que é permitido para uma vida em comunidade e o que é abominável. Todos os segmentos deveriam ter um. As escolas deveriam voltar a discutir conduta. As famílias deveriam gastar muito tempo nisto. Estamos caminhando para um mundo de 8 bilhões de pessoas. Sem a definição do que é suportável e o que não é, ficará inviável todo o convívio. Você não nasce tendo um comportamento ético. Isto tem que ser educado. O Código de Conduta é a referência para esta educação.

    A ética pode ser um valor? Caso positivo, de forma ela deve ser valorizada no ambiente empresarial?

    A ética é um valor universal. Diferente do que se pensa, não existe ética individual. Ela é um fator de convívio. Dentro do ambiente empresarial, ela tem que ser doutrinada. Ética não é uma sugestão. É doutrina. Se a cabeça da empresa não entende desta forma, o caminho será mais árduo. Nossas ações devem ser reflexo daquilo que somos e pensamos. Não imagens projetadas para atender a uma opinião pública.

    Imaginemos que no futuro, grande parte das pessoas que ocupam postos de trabalho hoje, serão substituídas por máquinas. E que nossas vidas estarão submetidas a escolhas que estas máquinas farão. E que estas máquinas terão seu raciocínio ético oriundo de uma programação de algoritmo. Tenho a certeza que todos vão querer que estes programadores atendam aos princípios de justiça, equidade, transparência e respeito aos direitos universais. Precisamos confiar que isso irá acontecer.

    Saiba mais:

    Ética Empresarial, de Robert Srour (Editora Elsevier) – Obra pioneira no assunto, foi revista pelo autor em 2013. É livro de referência, adotado por universidades.

    Ética nas Empresas, de Eduardo Soto Pineda e José Antônio Marroquin (Editora Mc Graw Hill) – Livro com vários exemplos que mostram e analisam valores e condutas nas empresas, como forma de solucionar dilemas éticos e assumir responsabilidades de maneira efetiva no ambiente corporativo.

    Ética e vergonha na cara!, de Mario Sérgio Cortella e Clóvis de Barros Filho (Editora Papirus/Saraiva) – os autores discutem neste livro como atitudes corriqueiras, como jogar lixo no chão, são reveladoras de como orientamos nossas escolhas visando apenas resultados práticos, sem a dimensão da importância de pequenos atos para a formação de futuras gerações.

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