Despesas com energia elétrica vêm aumentando e chegaram a um ponto crítico em 2021.

Com o risco de racionamento de energia, as operadoras de saneamento, que têm a água como principal matéria-prima, estão enfrentando desafios para garantir os serviços e o equilíbrio econômico.

Além de acender o sinal de alerta no serviço de abastecimento de água para população, a diminuição dos níveis dos mananciais diante da estiagem prolongada traz mais uma preocupação: a disponibilidade de energia elétrica para o processo de produção nas estações de tratamento de água e de esgoto.

Dados do SNIS mostram que o índice de consumo de energia elétrica em sistemas de abastecimento de água kWh/m³ foi de 0,73 em 2020, enquanto em 2018 esse número era 0,708 (o índice é obtido ao se dividir o que foi consumido de energia pelo total de água produzido e importado).

A participação das despesas com energia elétrica nas despesas totais do processo de produção de água e esgoto representou 15,72% em 2020, enquanto em 2018 o índice foi um pouco menor, 14,48%. A tendência é que essa participação tenha sido bem maior no último ano.

O atual cenário das consequências da escassez hídrica coloca em alerta a disponibilidade de energia. O sistema elétrico atravessou grave crise hídrica com riscos ao suprimento em 2021, demandando a geração de todas as fontes disponíveis, além de programas de redução voluntária da demanda.

De acordo com dados do Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS), os reservatórios das hidrelétricas do Sudeste e do Centro-Oeste tiveram pequena melhora e, no início de janeiro, operavam com 28,45% de sua capacidade, um índice ainda preocupante, com níveis abaixo do ideal, principalmente se consideramos que já estamos em período de chuvas (a capacidade estava em 22,7% em setembro de 2021). O órgão divulgou estimativa de que o subsistema atingiria 37% de sua capacidade ao final de janeiro; com exceção do Sul, todos os subsistemas teriam elevação no primeiro mês do ano.

O economista e pesquisador da FGV-Ceri, Diogo Lisbona, explica que o cenário de dificuldades crescentes para atender à demanda e o elevado custo das alternativas de suprimento requerem uso otimizado da energia elétrica. “Com a perspectiva de tarifas de eletricidade elevadas e fim do desconto tarifário, deve-se racionalizar e otimizar o uso da energia elétrica, buscando eficiência energética, contratação de demanda e energia adequadas e deslocamento do consumo fora dos períodos de ponta”, explica.

Para as concessionárias de saneamento faturadas na baixa tensão – que somam 20% do consumo faturado do serviço público de água, esgoto e saneamento – pode-se migrar para a Tarifa Branca, uma tarifa do tipo time-of-use. “Essa modalidade, cuja adesão atualmente é opcional ao consumidor, é caracterizada por tarifas diferenciadas em três postos tarifários: ponta; intermediário; e fora ponta, de acordo com as horas de utilização do dia. Os horários e as tarifas variam entre as distribuidoras. A tarifa para os poucos horários de ponta é em média 100% mais elevada do que a tarifa tradicional, enquanto a tarifa fora ponta é 20% menor em média”, compara.

Segundo o economista, para o consumo na alta tensão – que responde por 80% do consumo faturado do serviço público de água, esgoto e saneamento – deve-se averiguar a contratação adequada da demanda para não pagar tarifas de ultrapassagem; além de tentar deslocar o consumo para fora dos horários de ponta. “Os consumidores com demanda superior a 1,5 MW são elegíveis ao consumo livre, podendo contratar energia diretamente no mercado livre; consumidores com demanda superior a 0,5 MW também são elegíveis ao consumo livre especial, podendo contratar no mercado livre de fontes incentivadas (eólica, solar, biomassa e PCH – Pequenas Centrais Hidrelétricas). A contratação no mercado livre pode reduzir significativamente a fatura de energia de eletricidade.”

A adesão à minigeração distribuída (até 5 MW) e ao sistema de compensação de energia (net-metering) também é uma forma de reduzir a fatura de energia, por meio da instalação de geração na própria unidade consumidora (tipicamente com painéis fotovoltaicos) ou em áreas remotas de titularidade da concessionária, desde que estejam na mesma área de concessão da distribuidora de energia elétrica. “A energia produzida além do consumo gera créditos que podem ser utilizados para abater o consumo da distribuidora de energia elétrica em até 60 meses. As concessionárias de saneamento também podem explorar geração hidráulica distribuída a partir de aproveitamento de adutoras e reservatórios existentes. As tarifas de eletricidade estão em elevação, mas existe espaço significativo para redução de custos com gestão adequada e oportuna.”

Mercado livre x Mercado regulado

A curva de preços futuros (curva forward Dcide) no ambiente livre (ACL) em dezembro de 2021 alcançava R$ 200/MWh no horizonte trimestral e R$ 180/MWh no longo prazo para fontes convencionais. O resultado está um pouco abaixo da estimativa média para todo o ano passado, que indicava custo médio de energia e potência do ambiente regulado (ACR médio) em R$ 253/MWh.

Nos leilões regulados em 2021, eólica e solar foram negociados em torno de R$ 150/MWh, biomassa R$ 185/MWh e PCH R$ 208/MWh. A média da energia comercializada ficou em R$ 165/MWh.