Captação flutuante, perfuração de novos poços e campanhas de uso consciente da água estão entre as iniciativas das empresas para garantir água de qualidade nas torneiras.

Presentes em quase 400 cidades no país, das quais 42% são consideradas pequenos municípios, as concessionárias privadas de saneamento tomam medidas preventivas periódicas – e inovadoras – para evitar o desabastecimento à população durante crises hídricas, que têm sido cada vez mais frequentes.

Em Araçatuba, interior de São Paulo, as águas do Rio Tietê dão sinais dos severos efeitos da falta de chuva. Entre agosto e setembro do ano passado, a concessionária GS Inima Samar (GS Inima Brasil) registrou um recuo de quase 1,5 metro no ponto de captação no rio. Com isso, o volume útil à época caiu de 60% para 40%. Esse manancial é utilizado para abastecer 50% da cidade (aproximadamente 100 mil pessoas).

Para não prejudicar o abastecimento, a concessionária colocou em operação a captação flutuante, por meio de uma plataforma móvel interligada com mangotes e bomba, que é direcionada para dentro do rio cada vez que o nível diminuir. Essa plataforma foi utilizada com sucesso na grande seca de 2014, evitando o racionamento de água para a população atendida pelo manancial. Agora, com cenário parecido, a empresa informou que também está investindo em comunicação para a população para alertar o uso consciente da água. O mesmo também é realizado nas outras concessionárias do grupo.

 

Captação flutuante em Araçatuba: plataforma voltou a ser utilizada.

De acordo com o grupo BRK Ambiental, que possui operações em mais de 100 municípios no país, a situação das cidades do interior de São Paulo é realmente a que mais preocupa. No último trimestre do ano passado, dos cinco municípios com serviços de água operados pela concessionária em São Paulo, todos se encontravam em estado de alerta em relação ao nível de água nos reservatórios, porém o abastecimento não foi afetado em nenhum momento.

Desde o início do ano passado, a empresa realizou uma série de obras, investimentos e medidas preventivas, todas estabelecidas em Planos de Contingência, nos municípios de Limeira, Mairinque, Porto Ferreira, Santa Gertrudes e Sumaré. Esse plano envolve investimentos em redução de perdas no sistema de distribuição, ampliação da reserva de água tratada, melhorias estruturais, modernização de processos e uma ampla campanha de conscientização do consumo consciente, com a iniciativa “Jogando junto pela água”, que conta com uma página exclusiva na internet (https://jogandojuntopelaagua.com.br/) e reúne informações sobre as condições dos mananciais responsáveis pelo abastecimento das cidades, além de dados sobre os índices de chuvas.

O grupo Águas do Brasil, que conta com 13 concessionárias, localizadas em 15 municípios, relata que, apenas na concessionária Águas de Araçoiaba, também no interior de São Paulo, foi necessário adotar o abastecimento periódico.

No município de Petrópolis (RJ), o grupo registrou redução de 22% dos níveis dos mananciais. Porém, a existência de sistemas alternativos (Ponte de Ferro e Rio da Cidade) assegurou o abastecimento da população.

O grupo Aegea, que atende 153 municípios em todo o país, também informou que colocou em ação várias medidas para evitar desabastecimento. Na concessionária Águas Guariroba, em Campo Grande (MS), foram investidos R$ 50 milhões para a perfuração de nove poços, somente neste ano, a fim de ampliar o sistema de abastecimento na cidade. As novas fontes de captação garantem 1,7 milhão de litros/ hora de água produzida a mais para a cidade, descartando o risco de falta d’água nas torneiras.

A concessionária também realizou trabalhos preventivos nos reservatórios. Com o auxílio de mergulhadores especializados, dez reservatórios da Águas Guariroba passaram por um cronograma de limpeza e manutenção. A ação é uma das medidas de preparação da concessionária para os períodos de altas temperaturas. Com um procedimento inovador, a limpeza foi executada com os reservatórios cheios e em plena operação, evitando desperdícios, sem impacto no sistema de abastecimento de água da capital sul-matogrossense.

Nas cidades atendidas pelo grupo Iguá Saneamento, a realização do planejamento estratégico com foco na estiagem fez com que a falta de chuvas não afetasse o abastecimento para a população. Nenhum dos municípios operados pelas concessões e PPPs do grupo (dez em Alagoas, seis em Mato Grosso, quatro em São Paulo, um no Paraná, dois em Santa Catarina e mais uma PPP com a Sabesp, na região metropolitana de São Paulo), foram afetados.

A Iguá cita que foram realizadas melhorias de todo o controle operacional dos sistemas de produção durante os meses mais complexos da estiagem. Foram feitos investimentos na gestão da pressão das redes, na redução de perdas, na ampliação da reservação em locais mais estratégicos, no monitoramento das captações e dos mananciais, e na conscientização da população.
“Nosso segmento aprendeu bastante com a crise de 2014-2015. A onda mais recente de investimentos conseguiu atenuar o problema. Com as chuvas do verão, a tendência é conseguirmos passar sem racionamento”, avalia o diretor executivo da ABCON SINDCON, Percy Soares Neto.

Novo reservatório de água, construído pela concessionária em Ariquemes.