A chegada de uma nova concessionária é um momento decisivo para uma boa relação com a comunidade, que vai perdurar por décadas e terá impactos relevantes em vários aspectos, da geração de emprego até a preservação ambiental.

A entrada de uma nova concessão gera de fato uma grande expectativa. É um período em que todos os olhos da população estarão sobre a empresa, e ela certamente será cobrada, muitas vezes por problemas antigos, que já existiam antes de assumir a operação.

Como as concessionárias privadas se preparam para esse momento?

Um conceito que ajuda as empresas a guiarem suas ações e já está incorporado pelas concessionárias é a chamada licença social para operar. Em linhas gerais, essa licença é o entendimento de que atividades como os serviços públicos de água e esgoto devem exceder as expectativas das comunidades atendidas, sempre observando as determinações legais e a regulação desses serviços.

“A licença social faz com que a concessionária enxergue a cidade como um todo e não se limite apenas ao que tange a seus serviços. Afinal, a empresa chega para ficar por 30, 40 anos, e não ficará apenas fazendo obras e ampliando o sistema de água e esgoto. O trabalho da concessionária envolve todo um relacionamento com o público local”, completa o presidente do Instituto Aegea, Edison Carlos.

Ele destaca o trabalho preparatório que as concessões do grupo realizam antes de iniciar a operação. “Nós chegamos à cidade em que iremos atuar com um mapeamento prévio que inclui análises do aspecto social. Nesse trabalho, levantamos itens como a renda média da população e as áreas vulneráveis. Isso permite que a concessão atue para mostrar que veio para fazer a diferença no município, que veio para ficar”, explica.

Observar os princípios de transparência e credibilidade é outro preceito valorizado pelas concessionárias privadas nessa relação. “A melhor forma de se comunicar é mostrar para a população, com dados concretos, as mudanças que estão sendo realizadas em prol do tratamento de água e esgoto. É um compromisso de larga escala com a vida, as pessoas, o meio ambiente, os parceiros e o desenvolvimento sustentável local”, afirma o diretor-geral da Iguá no Rio de Janeiro, Eduardo Dantas.

Ele exemplifica com algumas das ações que a Iguá está adotando na concessão do Rio de Janeiro. A companhia passou a atender 1,2 milhão de pessoas com serviços completos de água e esgotamento sanitário em dois municípios e mais a concessão para distribuição de água, coleta e tratamento de esgoto nas regiões da Barra e Jacarepaguá. “Mantivemos, por exemplo, iniciativas socioeducativas de responsabilidade social que, nos primeiros 100 dias, já resultaram em mais de seis mil pessoas impactadas nas comunidades”, relata o diretor.

O Grupo Águas do Brasil também possui uma trajetória bem-sucedida com a licença social para operar e agora se prepara para mais um desafio: atender a mais de 2,6 milhões de pessoas com a concessão Rio+Saneamento, ainda em operação assistida. “A ampliação da rede de água e esgoto e a melhoria do sistema são fundamentais para contribuir com a cidadania e saúde à população. Nosso compromisso é levar um serviço de qualidade e universalizar o fornecimento. Isso é possível com uma equipe forte, qualificada e proativa”, destaca o CEO da Rio+Saneamento, Leonardo Righetto.

“A necessidade de investimentos e obras é grande, e os resultados vêm a médio e longo prazo, mas essa relação com a comunidade é construída desde o primeiro momento. O interesse da opinião pública nas atividades da empresa vai muito além da prestação de serviço de qualidade. Hoje, o cliente valoriza uma série de fatores, desde a forma como a companhia trata seus colaboradores até suas políticas de sustentabilidade”, completa.

 

Rio de Janeiro, uma relação que começa a ser construída

 

O caso do Rio de Janeiro é emblemático. Com o leilão de quatro blocos de municípios para a concessão de serviços antes operados pela companhia pública Cedae, o estado possui hoje três novas concessões privadas de peso em atividade (além de outras concessões que já atuavam anteriormente), e existe muita expectativa de que as condições de saneamento darão um salto nos próximos anos.

A concessionária Águas do Rio, por exemplo, atende a 27 cidades, inclusive em 124 bairros da capital fluminense. Conforme adiantado por Edison Carlos, um extenso levantamento prévio foi realizado e, a partir do programa Afluentes do grupo Aegea, lideranças comunitárias foram identificadas. A partir daí, começou um trabalho de comunicação direta com as populações atendidas.

“O líder recebe as impressões de sua comunidade sobre nosso serviço e nos aciona de forma muito rápida. É um canal que estabelecemos desde o início e que proporciona tranquilidade aos usuários de que eles serão atendidos. Isso já representa um avanço muito significativo. O canal aberto é também uma oportunidade de reafirmarmos nosso compromisso com as comunidades de atingir as metas estabelecidas no atendimento à população”, relata Edison.

Leonardo Righetto, da Rio+ Saneamento, também destaca o relacionamento com o usuário como um diferencial. Concessionária responsável pela operação do Bloco 3 da Cedae, a empresa estará em operação assistida até o final de setembro, mas trabalha com a previsão de antecipar esse prazo e assumir definitivamente a concessão ainda no início de agosto. Ela atenderá a 18 municípios e 22 bairros da zona oeste da cidade do Rio de Janeiro.

“O atendimento é a primeira mudança perceptível. O cliente deve sentir que ele será tratado de maneira diferenciada, com respeito e dignidade”, afirma Leonardo.

No caso da Iguá, a chegada ao Rio de Janeiro se dará em três momentos. O primeiro deles começou em agosto de 2021, quando foi assinado o contrato de concessão e teve início a operação assistida junto com a Cedae, finalizada em fevereiro de 2022. “Esse período foi fundamental para que realizássemos todo o planejamento inicial, contratássemos os colaboradores, pudéssemos treinar os nossos colaboradores com o apoio do time da Cedae, implantássemos nossos sistemas e processos, bem como iniciássemos vários diagnósticos como o do sistema de água e esgoto na área da concessão, os projetos de investimentos, entre outras ações”, assinala o diretor-geral da Iguá no Rio de Janeiro, Eduardo Dantas.

Desde fevereiro, a Iguá é responsável pela operação plena dos serviços de distribuição de água, coleta e tratamento de esgoto na região da Barra da Tijuca e Jacarepaguá, e do ciclo completo de saneamento em Miguel Pereira e Paty do Alferes. Em uma terceira fase, a Iguá começará a receber as licenças de obras de seus projetos e poderá iniciar investimentos ainda mais robustos.

“Não abrimos mão de ações socioambientais de curto prazo, como a remoção dos resíduos sólidos e o cercamento das margens da lagoa do Camorim, além da contratação de colaboradores das áreas vulneráveis de nosso perímetro de atuação. Também temos aportado bastante tecnologia e um ambiente cada vez mais digital. Já estamos fazendo a diferença e modificando o cenário que encontramos quando assumimos. O saldo desse início de operação é muito positivo”, avalia Eduardo.

Mencionada por ele, a contratação de mão-de-obra local é, de fato, outra ação que aproxima concessionárias e as comunidades. A Iguá criou um banco de currículos comunitários no Rio que alcançou 2.800 inscrições. Hoje, cerca de 10% dos colaboradores próprios da empresa é de moradores de comunidades.

No caso da Águas do Rio, foram 6 mil contratações no total, das quais dois terços foram efetivadas entre o pessoal que vive nos locais onde a concessionária se instalou.

A Rio+Saneamento vai gerar ao menos 4.700 vagas diretas e indiretas. Até julho, haverá mais de 600 oportunidades para contratação em vários municípios. As vagas serão preenchidas em áreas como engenharia, segurança do trabalho, enfermagem e comunicação. “Vamos focar contratações nas áreas mais carentes, em que sabemos que existe grande demanda por renda, primeiro emprego e qualificação profissional”, atesta Leonardo.

A própria inclusão de áreas urbanas não-regularizadas ao sistema de água e esgoto é uma conquista a ser enaltecida como parte de uma política pública, alinhada com ações da prefeitura e do governo estadual. A Rio+Saneamento, por exemplo, trabalha com um orçamento de R$ 354 milhões a ser destinado exclusivamente para essas áreas.

O impacto ao meio ambiente é mais um fator que será de grande visibilidade no trabalho das concessionárias privadas no Rio de Janeiro. Já existe uma experiência muito bem-sucedida das empresas na recuperação da Lagoa de Araruama, onde estão instalados os consórcios Águas de Juturnaíba e Prolagos. Agora a expectativa é que também as baías da Guanabara e de Sepetiba– bem como outros corpos d´água espalhados pelo estado – também se livrem da poluição causada pela falta de tratamento de esgoto.

O uso de fontes renováveis e um forte trabalho de redução de perdas físicas no sistema – comuns à gestão das operadoras privadas – serão aliados nesse desafio.

 

Renascentes do Passa Quatro: plantio de árvores e engajamento de estudantes fazem parte do projeto

 

Ações preservam mananciais e engajam a comunidade

 

Não basta cumprir as metas dos contratos de concessão e prestar bons serviços de saneamento básico para seus clientes. No entendimento de empresas como o grupo GS Inima Brasil, as concessionárias devem se engajar em iniciativas que contribuam para a melhoria das condições de vida de seus clientes. Por meio de parceria com o poder público e ONGs, as operações têm feito diferença nos locais onde atuam.

Bom exemplo é o projeto Renascentes do Passa Quatro, criado para enfrentar a degradação do meio ambiente que vem causando a diminuição da vazão do Córrego Passa Quatro ao longo dos anos, colocando em risco o abastecimento dos moradores de Santa Rita do Passa Quatro (SP). Em parceria com a Prefeitura Municipal, a COMASA passou a recuperar áreas degradadas onde fica um dos principais mananciais da cidade. Alunos das escolas locais foram engajados no plantio de árvores e vão participar da manutenção das áreas.

Em Maceió, a Sanama – Saneamento da Alta Maceió tem priorizado a reutilização de materiais em detrimento da disposição final em aterros sanitários, já que apenas 23% das tipologias de resíduos não são recicláveis. A concessionária mantém vínculo com cooperativas de coleta de resíduos recicláveis para as quais fornece madeira e sobras de obras de alvenaria. Além disso, firmou parceria com a comunidade agroecológica da região, Oasis (CSA Oasis), para a doação do resíduo de poda de jardinagem da ETE Benedito Bentes. A Sanama destinou cerca de duas toneladas de plásticos, papéis e metais para as cooperativas locais, auxiliando na composição da renda de cerca de 30 famílias na região da Alta Maceió.