Oferta de químicos, tubos e PVC é vista com preocupação, mas indústria nega risco

O aumento de investimentos no mercado de saneamento básico começa a gerar uma preocupação de possíveis gargalos na cadeia de fornecedores e prestadores de serviços do setor. Hoje, o tema já tem sido um problema, em grande parte, devido à crise global da cadeia de suprimentos, provocada pela pandemia. Porém, a expectativa é que, a partir deste ano, a situação se agrave.

Além da nova onda de concessões, as próprias estatais têm sido pressionadas a ampliar investimentos, para atender às metas de universalização do novo marco legal. A movimentação tende a crescer a partir de agora, já que as companhias estão passando por uma reformulação de todos os seus contratos vigentes, para adaptá-los às normas da nova lei, diz Karla Bertocco, sócia da Mauá Capital e ex-presidente da Sabesp.

“As metas foram trazidas e agora todas as empresas, públicas e privadas, estão se organizando com orçamentos e contratações. É aí que as lacunas da cadeia de fornecimento vão ficar mais evidentes. Até então ficaram menos, porque o foco era outro. Com os aditivos [dos contratos em curso] sendo firmados, esse contexto ficará mais claro”, diz ela.

A dúvida é se a oferta de alguns materiais, e mesmo de mão de obra, irá acompanhar esse aumento de demanda. Em alguns produtos, o problema é considerado maior devido à concentração da cadeia de fornecedores.

O nível de preocupação varia de acordo com o nicho específico. Um estudo do BNDES, realizado no ano passado, aponta um potencial gargalo no fornecimento nacional de tubos de ferro fundido, tubos de PVC e resina de PVC.

O mapeamento classificou como “inconclusivo” o risco na oferta de produtos químicos. Porém, entre empresas do setor, a percepção é que já existe escassez de certos itens, como ácido clorídrico e ácido sulfúrico, usados no tratamento de água e esgoto.

No caso da resina de PVC (formada por cloro e eteno), um dos itens considerados mais críticos, o mercado coloca como um fator de preocupação a concentração da indústria. Hoje, apenas Unipar e Braskem são fornecedoras.

A indústria rebate, diz que ainda não viu aumento na demanda do setor de saneamento, que as fábricas têm trabalhado com ociosidade e que estão preparados para atender à expansão.

“No país há muita capacidade disponível. Não vejo preocupação para os próximos cinco anos. E, para o longo prazo, temos tempo para ampliar a capacidade. Sobre o tema da concentração, não vejo como algo relevante, porque é possível trazer o produto do exterior, como já acontece hoje. Há uma participação relevante de importações”, diz Mauricio Russomanno, presidente da Unipar e do Conselho Diretor da Abiclor (Associação Brasileira da Indústria de Álcalis, Cloro e Derivados).

No caso da Unipar, a empresa já vem realizando ampliações em sua fábrica de Santo André (SP), que deverão ser concluídas em 18 meses, e também estuda uma nova fábrica no Nordeste, para atender a demanda no longo prazo.

A Braskem diz que, neste momento, não tem plano de expandir capacidade, e que a ideia é antes elevar a taxa de operação de unidades existentes. O grupo também nega que haja gargalo no fornecimento e diz que o setor de PVC tem um “equilíbrio considerável entre oferta e demanda”.

A Asfamas (Associação Brasileira de Materiais para Saneamento), que representa a cadeia de tubulação, também afirma que ainda não vê um aumento dos pedidos, e que o setor planeja expandir a produção, mas em um ritmo coordenado com o avanço dos investimentos. “Estamos esperando se concretizar. O tempo para ampliar a capacidade é de oito a doze meses, o que é considerado rápido”, afirma Luana Pretto, diretora da entidade.

Um segmento que já tem visto alta na demanda são os fabricantes de medidores, afirma Henrique Costa, principal acionista do Invergroup, que reúne vários negócios voltados ao setor.

“Quando a empresa entra numa concessão, a primeira ação é trocar os hidrômetros [medidores de vazão de água], porque já dá retorno e não requer nenhuma licença”, diz. O empresário afirma que a maior presença privada no mercado já se reflete em mudanças no padrão de aquisições, com uma procura maior por medidores inteligentes (capazes de fazer leitura remota).

O grupo está ampliando a produção de sua fábrica em Americana (SP) e deverá construir, neste ano, uma nova unidade na região, voltada a negócios de saneamento, com investimento de R$ 65 milhões. A ideia é que a capacidade tenha alta entre 40% e 50%.

A cadeia industrial é o que mais preocupa, mas o mercado também enxerga a necessidade de apoiar prestadores de serviço, como construtoras. Para Bertocco, o foco para essas empresas deve ser o crédito. “Muitas não têm estrutura de governança e de garantias para acessar BNDES e Caixa. Então acabam usando linhas corporativas, que não têm as características adequadas para um projeto de saneamento”, afirma.

Igino Zucchi de Mattos, chefe da área de infraestrutura da Integral Investimentos, também relembra o impacto da Lava Jato no setor como um todo. “As empresas têm restrições de crédito pelo histórico. É um mercado com margens mais baixas e retorno de médio, longo prazo. Então é importante dar fluidez de caixa.”

Com esse objetivo, a Integral está neste momento desenvolvendo um produto para financiar essa cadeia de fornecedores e prestadores de serviço, diz ele.

A Mauá Capital também tem trabalhado em projetos para financiar prestadores de serviço. O primeiro deles, de R$ 8 milhões, foi firmado em meados de 2021, para dar crédito a um empreiteiro médio, em um contrato de redução de perdas. Depois disso, já foi feito um segundo, de R$ 9 milhões, e o grupo está iniciando outros dois financiamentos, que deverão somar R$ 45 milhões.

A gestora também tem planos de financiar a cadeia de materiais. Porém, a estruturação é mais complexa, avalia Bertocco. “A ideia é identificar um grupo de investidores dispostos a apoiar essas empresas com ‘equity’ e governança. Crédito é importante, mas só isso não vai resolver.”

Tanto ela quanto Mattos avaliam que a saída para a concentração de mercado em alguns nichos deverá passar pela inovação. “Temos algumas cadeias oligopolizadas e uma pressão de custos que já está alta. Mas há também grupos investindo em soluções inovadoras”, diz ele. As concessionárias também veem a inovação como caminho. No caso da escassez de químicos, por exemplo, há grupos testando alternativas que possam ser importadas.

 

Fonte: Valor Econômico